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    Internacional

    Arsenal fantasma: EUA admitem dificuldade para destruir mísseis do Irã

    Relatórios de inteligência revelam que, após um mês de guerra, apenas um terço do poder de fogo de Teerã foi eliminado.
    Por Pantani Mendanha27 de março de 2026Atualizado:27 de março de 2026
    Arsenal fantasma: EUA admitem dificuldade para destruir mísseis do Irã
    Mísseis iranianos fotografados em 'Cidade dos Mísseis' da Guarda Revolucionária do Irã — Foto: Guarda Revolucionária do Irã/Wana/Handout via Reuters
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    Um mês após o início do conflito que redesenhou as tensões no Oriente Médio, a realidade nos campos de batalha parece distante dos discursos vitoriosos proferidos em Washington. Relatórios de inteligência militar dos Estados Unidos, revelados nesta sexta-feira (27), indicam uma lacuna preocupante entre a retórica oficial e a eficácia real dos bombardeios: apenas 33% do vasto arsenal de mísseis iraniano foi efetivamente destruído até agora.

    A revelação traz à tona a resiliência estratégica de Teerã, que investiu décadas na construção de “cidades de mísseis” — fortalezas subterrâneas encravadas em montanhas que desafiam a tecnologia de satélites e os ataques aéreos. Embora o governo Trump insista que a capacidade militar do inimigo foi obliterada, os números internos da inteligência sugerem que o Irã ainda mantém dois terços de seu poder de fogo, seja intacto ou recuperável sob os escombros de bunkers atingidos.

    Por que isso importa

    A persistência do arsenal iraniano não é apenas uma estatística militar; é uma ameaça direta à estabilidade global e à segurança de milhões de pessoas. Com mísseis e drones ainda operacionais, o Irã mantém a capacidade de paralisar o comércio mundial no Estreito de Ormuz e atingir bases aliadas em um raio de milhares de quilômetros. Para o cidadão comum, isso se traduz em incerteza econômica, risco de escalada nuclear e o prolongamento de uma guerra que muitos esperavam ser curta.

    O abismo entre o discurso e a realidade técnica

    Desde o início da operação “Epic Fury”, em 28 de fevereiro, o Comando Central dos EUA (CENTCOM) contabiliza mais de 10 mil bombardeios em solo iraniano. O presidente Donald Trump e o secretário de Guerra, Pete Hegseth, têm adotado uma postura de “missão cumprida”, afirmando publicamente que Teerã está ficando sem recursos. Na última quinta-feira, o presidente chegou a minimizar a ameaça, sugerindo que restariam “muito poucos foguetes” nas mãos dos aiatolás.

    Contudo, cinco autoridades de inteligência confirmaram que a situação é muito mais complexa. Se um terço está confirmado como destruído, o segundo terço encontra-se em uma “zona cinzenta”: armamentos que podem ter sido soterrados ou danificados, mas que técnicos iranianos poderiam recuperar assim que os céus estivessem limpos. O terço final permanece como um espectro perigoso — mísseis prontos para o lançamento que a inteligência sequer consegue localizar com precisão.

    O contraste é gritante quando comparado ao sucesso da Marinha. O CENTCOM afirma ter afundado 92% dos grandes navios iranianos, praticamente neutralizando a frota de superfície de Teerã. Entretanto, a guerra assimétrica travada por terra, escondida sob centenas de metros de rocha e concreto, provou ser um desafio de outra magnitude, mesmo para a força aérea mais sofisticada do planeta.

    O problema central reside na falta de dados pré-guerra. Como o Irã manteve seu estoque sob sigilo absoluto, as estimativas variam drasticamente: de 2.500 mísseis, segundo cálculos israelenses, a até 6.000, de acordo com analistas independentes. Sem um denominador comum, medir o percentual de destruição torna-se uma tarefa de adivinhação técnica, onde o otimismo político muitas vezes atropela a cautela militar.

    Bastidores e Análise: A estratégia das “Cidades de Mísseis”

    O que os EUA estão enfrentando agora é o resultado de uma estratégia iraniana de longo prazo baseada na sobrevivência. Teerã aprendeu com conflitos anteriores no Iraque e na Sérvia que a supremacia aérea americana é incontestável. Em resposta, a Guarda Revolucionária Islâmica transformou a geografia acidentada do país em uma aliada, criando labirintos subterrâneos que funcionam como fábricas e locais de lançamento simultâneos.

    A análise de especialistas como Nicole Grajewski reforça que o governo Trump pode estar caindo na armadilha de superestimar o dano físico e subestimar a capacidade de regeneração do Irã. O fato de mísseis continuarem sendo disparados de instalações como Bid Kaneh — que foi alvo de ataques massivos — sugere que os túneis são mais profundos e interconectados do que as bombas “bunker buster” americanas conseguem alcançar.

    Há também uma disputa de narrativas dentro do próprio Pentágono. Enquanto a ala política precisa vender o sucesso da guerra para manter o apoio doméstico, os militares de carreira temem que a negação da realidade leve a uma complacência perigosa. Se Washington acredita que o Irã está desarmado, pode ser pega de surpresa por um ataque de saturação que sobrecarregue os sistemas de defesa antimísseis na região.

    Consequências: O perigo do “1% inaceitável”

    As consequências dessa resiliência já são visíveis. Mesmo sob o fogo cruzado de mil alvos por semana, o Irã demonstrou que ainda possui dentes. O lançamento de 15 mísseis balísticos contra os Emirados Árabes e o ataque inédito à base de Diego Garcia, no Oceano Índico, provam que o alcance de Teerã não foi apenas preservado, mas testado em novos limites durante o conflito.

    Na prática, isso significa que as rotas comerciais e o fluxo de petróleo permanecem reféns. Como o próprio Trump reconheceu, em um raro momento de cautela, mesmo que 99% do arsenal fosse eliminado, o 1% restante poderia ser suficiente para afundar um navio de bilhões de dólares ou causar uma catástrofe humanitária em uma capital aliada. A existência de um arsenal remanescente impede qualquer declaração de vitória definitiva.

    Além disso, a manutenção da capacidade industrial iraniana — também alvo dos bombardeios, mas com resultados incertos — indica que o país pode estar produzindo novos projéteis enquanto os antigos são disparados. Isso cria uma “guerra de exaustão” que os EUA não previram em seus planos originais, onde o custo de cada míssil interceptador americano é infinitamente superior ao custo do foguete iraniano que ele derruba.

    Próximos Passos

    A partir de agora, o foco militar dos Estados Unidos deve mudar da quantidade para a qualidade dos alvos. O Comando Central está sob pressão para fornecer provas concretas da destruição das instalações subterrâneas, o que pode exigir o uso de armamentos experimentais ou até operações de forças especiais em solo para confirmar o colapso dos túneis.

    No campo diplomático e político, o governo Trump enfrentará questionamentos mais duros sobre a duração da operação “Epic Fury”. Se o objetivo era desarmar o Irã e esse objetivo está apenas 33% concluído após um mês de bombardeio total, a estratégia de “pressão máxima” aérea pode precisar de uma revisão drástica para evitar que o conflito se transforme em um atoleiro de anos.

    O horizonte de incertezas

    Enquanto as bombas continuam a cair sobre as montanhas do Irã, a pergunta que ecoa nos centros de inteligência não é quantos mísseis foram atingidos, mas quantos ainda restam para serem disparados. O mundo observa, em suspense, uma queda de braço onde a tecnologia de ponta americana tenta esmagar a resistência enterrada de Teerã. O sucesso ou o fracasso dessa caçada metódica definirá se a guerra está próxima do fim ou se o pior ainda está por vir nas profundezas das montanhas persas.

    As informações têm como base apuração publicada pelo portal: G1

    Leia mais:

    • Espanha confronta EUA e Israel por “guerra injusta” no Irã
    • Paquistão atua como ponte em nova proposta dos EUA para o Irã
    Arsenal de mísseis Irã Guerra EUA e Irã
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