Um mês após o início do conflito que redesenhou as tensões no Oriente Médio, a realidade nos campos de batalha parece distante dos discursos vitoriosos proferidos em Washington. Relatórios de inteligência militar dos Estados Unidos, revelados nesta sexta-feira (27), indicam uma lacuna preocupante entre a retórica oficial e a eficácia real dos bombardeios: apenas 33% do vasto arsenal de mísseis iraniano foi efetivamente destruído até agora.
A revelação traz à tona a resiliência estratégica de Teerã, que investiu décadas na construção de “cidades de mísseis” — fortalezas subterrâneas encravadas em montanhas que desafiam a tecnologia de satélites e os ataques aéreos. Embora o governo Trump insista que a capacidade militar do inimigo foi obliterada, os números internos da inteligência sugerem que o Irã ainda mantém dois terços de seu poder de fogo, seja intacto ou recuperável sob os escombros de bunkers atingidos.
Por que isso importa
A persistência do arsenal iraniano não é apenas uma estatística militar; é uma ameaça direta à estabilidade global e à segurança de milhões de pessoas. Com mísseis e drones ainda operacionais, o Irã mantém a capacidade de paralisar o comércio mundial no Estreito de Ormuz e atingir bases aliadas em um raio de milhares de quilômetros. Para o cidadão comum, isso se traduz em incerteza econômica, risco de escalada nuclear e o prolongamento de uma guerra que muitos esperavam ser curta.
O abismo entre o discurso e a realidade técnica
Desde o início da operação “Epic Fury”, em 28 de fevereiro, o Comando Central dos EUA (CENTCOM) contabiliza mais de 10 mil bombardeios em solo iraniano. O presidente Donald Trump e o secretário de Guerra, Pete Hegseth, têm adotado uma postura de “missão cumprida”, afirmando publicamente que Teerã está ficando sem recursos. Na última quinta-feira, o presidente chegou a minimizar a ameaça, sugerindo que restariam “muito poucos foguetes” nas mãos dos aiatolás.
Contudo, cinco autoridades de inteligência confirmaram que a situação é muito mais complexa. Se um terço está confirmado como destruído, o segundo terço encontra-se em uma “zona cinzenta”: armamentos que podem ter sido soterrados ou danificados, mas que técnicos iranianos poderiam recuperar assim que os céus estivessem limpos. O terço final permanece como um espectro perigoso — mísseis prontos para o lançamento que a inteligência sequer consegue localizar com precisão.
O contraste é gritante quando comparado ao sucesso da Marinha. O CENTCOM afirma ter afundado 92% dos grandes navios iranianos, praticamente neutralizando a frota de superfície de Teerã. Entretanto, a guerra assimétrica travada por terra, escondida sob centenas de metros de rocha e concreto, provou ser um desafio de outra magnitude, mesmo para a força aérea mais sofisticada do planeta.
O problema central reside na falta de dados pré-guerra. Como o Irã manteve seu estoque sob sigilo absoluto, as estimativas variam drasticamente: de 2.500 mísseis, segundo cálculos israelenses, a até 6.000, de acordo com analistas independentes. Sem um denominador comum, medir o percentual de destruição torna-se uma tarefa de adivinhação técnica, onde o otimismo político muitas vezes atropela a cautela militar.
Bastidores e Análise: A estratégia das “Cidades de Mísseis”
O que os EUA estão enfrentando agora é o resultado de uma estratégia iraniana de longo prazo baseada na sobrevivência. Teerã aprendeu com conflitos anteriores no Iraque e na Sérvia que a supremacia aérea americana é incontestável. Em resposta, a Guarda Revolucionária Islâmica transformou a geografia acidentada do país em uma aliada, criando labirintos subterrâneos que funcionam como fábricas e locais de lançamento simultâneos.
A análise de especialistas como Nicole Grajewski reforça que o governo Trump pode estar caindo na armadilha de superestimar o dano físico e subestimar a capacidade de regeneração do Irã. O fato de mísseis continuarem sendo disparados de instalações como Bid Kaneh — que foi alvo de ataques massivos — sugere que os túneis são mais profundos e interconectados do que as bombas “bunker buster” americanas conseguem alcançar.
Há também uma disputa de narrativas dentro do próprio Pentágono. Enquanto a ala política precisa vender o sucesso da guerra para manter o apoio doméstico, os militares de carreira temem que a negação da realidade leve a uma complacência perigosa. Se Washington acredita que o Irã está desarmado, pode ser pega de surpresa por um ataque de saturação que sobrecarregue os sistemas de defesa antimísseis na região.
Consequências: O perigo do “1% inaceitável”
As consequências dessa resiliência já são visíveis. Mesmo sob o fogo cruzado de mil alvos por semana, o Irã demonstrou que ainda possui dentes. O lançamento de 15 mísseis balísticos contra os Emirados Árabes e o ataque inédito à base de Diego Garcia, no Oceano Índico, provam que o alcance de Teerã não foi apenas preservado, mas testado em novos limites durante o conflito.
Na prática, isso significa que as rotas comerciais e o fluxo de petróleo permanecem reféns. Como o próprio Trump reconheceu, em um raro momento de cautela, mesmo que 99% do arsenal fosse eliminado, o 1% restante poderia ser suficiente para afundar um navio de bilhões de dólares ou causar uma catástrofe humanitária em uma capital aliada. A existência de um arsenal remanescente impede qualquer declaração de vitória definitiva.
Além disso, a manutenção da capacidade industrial iraniana — também alvo dos bombardeios, mas com resultados incertos — indica que o país pode estar produzindo novos projéteis enquanto os antigos são disparados. Isso cria uma “guerra de exaustão” que os EUA não previram em seus planos originais, onde o custo de cada míssil interceptador americano é infinitamente superior ao custo do foguete iraniano que ele derruba.
Próximos Passos
A partir de agora, o foco militar dos Estados Unidos deve mudar da quantidade para a qualidade dos alvos. O Comando Central está sob pressão para fornecer provas concretas da destruição das instalações subterrâneas, o que pode exigir o uso de armamentos experimentais ou até operações de forças especiais em solo para confirmar o colapso dos túneis.
No campo diplomático e político, o governo Trump enfrentará questionamentos mais duros sobre a duração da operação “Epic Fury”. Se o objetivo era desarmar o Irã e esse objetivo está apenas 33% concluído após um mês de bombardeio total, a estratégia de “pressão máxima” aérea pode precisar de uma revisão drástica para evitar que o conflito se transforme em um atoleiro de anos.
O horizonte de incertezas
Enquanto as bombas continuam a cair sobre as montanhas do Irã, a pergunta que ecoa nos centros de inteligência não é quantos mísseis foram atingidos, mas quantos ainda restam para serem disparados. O mundo observa, em suspense, uma queda de braço onde a tecnologia de ponta americana tenta esmagar a resistência enterrada de Teerã. O sucesso ou o fracasso dessa caçada metódica definirá se a guerra está próxima do fim ou se o pior ainda está por vir nas profundezas das montanhas persas.
As informações têm como base apuração publicada pelo portal: G1
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