A possibilidade de a Ucrânia realizar eleições em meio à guerra contra a Rússia voltou ao centro do debate político em Kiev depois que o ex-ministro da Defesa, Mykhailo Fedorov, defendeu publicamente a convocação de uma votação. O tema não é novo, mas ganhou força diante da pressão de Washington e da própria fala do presidente Volodymyr Zelensky, que afirmou estar disposto a aceitar eleições caso Estados Unidos e aliados europeus consigam garantir a segurança do processo.
O impasse, porém, esbarra em uma série de obstáculos concretos, que vão de restrições legais até a logística de levar milhões de eleitores às urnas em um país em guerra.
Por que a Ucrânia não realiza eleições desde 2022
Desde que a Rússia lançou sua invasão em larga escala, em fevereiro de 2022, a Ucrânia vive sob lei marcial, que proíbe expressamente a realização de eleições por motivos de segurança. As últimas eleições no país ocorreram em 2019. Com a frente de batalha se estendendo por mais de 1.200 quilômetros pelo leste, sul e norte do território ucraniano, e com ataques russos frequentes com mísseis e drones atingindo cidades distantes da linha de combate, a organização de um pleito nacional se torna, na prática, uma operação de altíssimo risco.
A instabilidade também afeta a infraestrutura básica do país: o fornecimento de energia elétrica tem sido repetidamente prejudicado por ataques russos ao setor elétrico, o que compromete até mesmo a logística mais simples de uma eleição, como o funcionamento de seções de votação.
Analistas ouvidos pela Reuters apontam que, mesmo que houvesse vontade política imediata, seria necessário reconstruir praticamente do zero toda a estrutura legal do processo eleitoral. O cientista político Volodymyr Fesenko avalia que um cessar-fogo no espaço aéreo seria um primeiro passo indispensável antes de qualquer avanço, e estima que a criação de uma nova legislação eleitoral — definindo calendário, regras e procedimentos — levaria cerca de seis meses.
O desafio de levar eleitores às urnas
Outro ponto crítico é a localização física do eleitorado ucraniano, hoje pulverizado dentro e fora do país. Segundo dados citados na reportagem, mais de 4,4 milhões de ucranianos tinham status de proteção temporária na União Europeia até o final de junho, o que exigiria a montagem de centenas de seções eleitorais espalhadas pelo continente europeu.
Dentro do próprio território ucraniano, quase 4 milhões de pessoas estão deslocadas internamente, de acordo com a agência de migração da ONU. Atualizar o Registro Estatal de Eleitores para saber quem pode votar e onde é apontado por autoridades e especialistas como uma tarefa complexa, que consumiria tempo e recursos hoje direcionados à defesa do país.
Há ainda cerca de 1 milhão de pessoas servindo nas forças armadas ucranianas, muitas delas posicionadas em áreas de combate ativo, onde monitorar e viabilizar uma votação livre seria extremamente arriscado — e provavelmente exigiria mudanças na legislação eleitoral vigente.
Soma-se a isso a situação de aproximadamente 4,5 milhões de ucranianos adultos que, segundo estimativas oficiais de 2024, permanecem em territórios ocupados pela Rússia, hoje correspondentes a cerca de 19% do território do país. A Rússia, por sua vez, planeja realizar suas próprias eleições nessas áreas ocupadas no mês que vem — iniciativa que o governo ucraniano classifica como ilegal.
A questão da legitimidade e a pressão internacional
O debate eleitoral também tem dimensão diplomática. A Rússia argumenta que Zelensky perdeu legitimidade porque seu mandato formalmente terminou em maio de 2024, o que, segundo Moscou, o impediria de assinar acordos de paz em nome da Ucrânia. Do lado americano, o presidente Donald Trump já defendeu publicamente, inclusive em entrevista à Politico no fim do ano passado, que já seria hora de o país realizar uma votação.
Analistas alertam ainda que, além dos desafios logísticos internos, a Ucrânia precisaria se antecipar a tentativas de manipulação por parte da Rússia caso o processo eleitoral avance — um fator que complica ainda mais a equação de segurança já delicada.
Como estão as pesquisas de opinião
Apesar de todos os entraves, pesquisas indicam que Zelensky continuaria sendo um nome competitivo caso as eleições realmente ocorressem. Sua popularidade, que chegou a cerca de 90% no início da guerra, recuou para patamares próximos a 60%, variando conforme o instituto consultado. Um escândalo de corrupção no setor de energia, revelado no ano passado, chegou a impactar sua imagem, mas os índices de aprovação teriam se recuperado desde então.
Entre os principais concorrentes apontados pelas pesquisas estão Valeriy Zaluzhnyi, atual embaixador da Ucrânia no Reino Unido e ex-comandante-em-chefe das Forças Armadas, e Kyrylo Budanov, chefe do gabinete presidencial e ex-chefe da inteligência militar. Fedorov, o próprio defensor das eleições, também aparece com força nas pesquisas mais recentes, impulsionado pela repercussão de sua saída abrupta do Ministério da Defesa — decisão de Zelensky que provocou uma onda pouco comum de protestos de rua em plena guerra.
Segundo dados do instituto local SOCIS, citados pela mídia ucraniana, Fedorov apareceria com cerca de 13% das intenções de voto, atrás de Zaluzhnyi (21%) e de Zelensky (22%). Em um eventual segundo turno, tanto Fedorov quanto Zaluzhnyi teriam, segundo as mesmas pesquisas, condições de superar o atual presidente.
O que vem a seguir
Por ora, a realização de eleições na Ucrânia continua dependendo de uma combinação de fatores que ainda não se materializou: garantias de segurança internacional, uma nova estrutura legal, um cessar-fogo minimamente estável e a solução para o paradoxo logístico de reunir milhões de eleitores espalhados entre o exterior, o território ocupado e as linhas de frente. Enquanto essas condições não se alinham, o tema segue como um ponto de tensão simultânea entre Kiev, Moscou e os aliados ocidentais da Ucrânia.
As informações têm como base apuração publicada pelo portal: CNN Brasil (Reuters).
