O governo do Canadá formaliza nesta terça-feira as tarifas de retaliação contra os Estados Unidos, medida que marca um novo capítulo na disputa comercial entre os dois países, historicamente parceiros econômicos próximos. O anúncio será conduzido pelo ministro das Finanças canadense, François-Philippe Champagne, ao lado de outras autoridades do governo, que devem detalhar quais setores da economia americana e quais regiões dos Estados Unidos serão alvo da sobretaxa.
A decisão vem na sequência de um fim de semana de forte deterioração nas relações bilaterais. No sábado, o governo canadense interrompeu as negociações comerciais que vinham sendo conduzidas com Washington em torno da tarifa de 50% aplicada pelos Estados Unidos sobre produtos originários do Canadá, prometendo, na ocasião, uma resposta à altura.
Como a crise chegou a esse ponto
A escalada tem origem em uma sequência de decisões tomadas pelo governo americano ao longo do ano. Em 20 de julho, o presidente Donald Trump assinou proclamações impondo tarifas adicionais de 50% sobre uma ampla gama de produtos canadenses, taxação que deveria entrar em vigor em 19 de agosto, mas acabou adiada para o dia 22. A medida atinge setores como laticínios, bebidas alcoólicas, eletrônicos, materiais de construção, móveis, vestuário, calçados, brinquedos, artigos esportivos, cosméticos e produtos agrícolas — cobrindo, ao todo, cerca de US$ 20 bilhões em exportações canadenses aos Estados Unidos. A Casa Branca justificou a medida como resposta ao que classificou como tratamento discriminatório do Canadá a exportações americanas de laticínios, bebidas alcoólicas e veículos.
Após três dias de negociações intensas, as conversas entre os dois países fracassaram na noite de sexta-feira, pouco antes da meia-noite, horário em que a tarifa de 50% passaria a valer. Cada lado atribuiu ao outro a responsabilidade pelo colapso das tratativas. O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, classificou o rompimento como uma oportunidade perdida por parte do Canadá para uma parceria comercial mais favorável, afirmando que não há novas rodadas de negociação previstas.
A resposta de Ottawa
Diante do impasse, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, confirmou no sábado que o país aplicará tarifas sobre produtos americanos, em uma lógica inicialmente descrita como “dólar por dólar” em relação às tarifas impostas pelos Estados Unidos. A previsão é que a nova taxação canadense, incidindo sobre itens como aço, eletrônicos e outros produtos americanos, comece a valer em 8 de setembro. Mais recentemente, contudo, Carney sinalizou que o Canadá pode se afastar de uma resposta estritamente equivalente e adotar uma retaliação mais direcionada, com o objetivo declarado de proteger trabalhadores e empresas canadenses de efeitos colaterais mais amplos.
Em coletiva de imprensa no fim de semana, o premiê canadense classificou as tarifas americanas como um “erro de cálculo” por parte de Washington e chegou a comparar a situação a um conflito, afirmando que o país está reagindo a um ataque. A fala reflete o tom mais duro adotado por Ottawa nos últimos meses, em contraste com a postura inicialmente mais cautelosa da gestão Carney, que assumiu o comando do país em março de 2025.
Impacto econômico e dependência mútua
A disputa comercial expõe uma vulnerabilidade estrutural da economia canadense: cerca de 70% das exportações do país têm como destino os Estados Unidos, o que torna Ottawa especialmente exposta a qualquer nova rodada de tarifas americanas. Ainda assim, Carney tem sido um dos poucos líderes globais a optar pela retaliação direta diante do tarifaço de Trump, ao mesmo tempo em que busca diversificar parcerias comerciais e de defesa para reduzir a dependência histórica em relação ao mercado americano.
O impasse também compromete o futuro do acordo de livre-comércio entre Estados Unidos, México e Canadá, o USMCA (ou CUSMA, na sigla em português), já que as novas tarifas americanas afetam inclusive produtos que, em tese, deveriam estar isentos por estarem em conformidade com o acordo trilateral.
Cenário mais amplo: uma queda de braço que já dura mais de um ano
O confronto tarifário entre os dois países remonta a fevereiro de 2025, quando o governo americano impôs tarifas quase universais sobre produtos canadenses e mexicanos, medida que já havia provocado retaliação imediata por parte de Ottawa naquele momento. Desde então, a relação bilateral vem alternando períodos de trégua e novas ondas de tensão, em um padrão que se repete agora com contornos ainda mais duros.
A crise comercial também tem desdobramentos no dia a dia da população: o desgaste político acompanha, há mais de um ano, um movimento de boicote informal a produtos e viagens aos Estados Unidos por parte de consumidores canadenses, alimentado tanto pelas tarifas quanto por declarações anteriores do presidente americano sobre uma eventual anexação do Canadá.
O que esperar a partir de agora
Com o anúncio desta terça-feira, o mercado passa a monitorar de perto quais setores da economia americana serão especificamente afetados e se a retaliação canadense seguirá o modelo de correspondência direta ou migrará para uma abordagem mais seletiva, como já sinalizado por Carney. Também é esperado que o governo canadense anuncie medidas de apoio a empresas e trabalhadores impactados pelo tarifaço americano, num esforço para conter os efeitos econômicos internos da disputa.
Enquanto isso, a ausência de novas conversas agendadas entre as equipes de Washington e Ottawa indica que a queda de braço comercial entre os dois países deve se estender pelas próximas semanas, com reflexos diretos sobre cadeias produtivas integradas há décadas entre as duas economias.
As informações têm como base apuração publicada pelo portal CNN Brasil, com dados complementares de agências internacionais.
