O governo de Donald Trump recorreu de uma decisão judicial que barra novas restrições ao voto por correio nos Estados Unidos, reacendendo uma disputa que pode influenciar diretamente as eleições de meio de mandato marcadas para novembro. O recurso foi apresentado depois que uma juíza federal em Boston suspendeu, por duas semanas, a aplicação de uma ordem executiva assinada pelo presidente americano sobre o tema.
O caso agora segue para o Tribunal de Recurso do 1º Circuito, mas a expectativa é que volte a ser analisado pela Suprema Corte, que já havia permitido, por razões processuais, que o plano de Trump seguisse adiante — sem, no entanto, se pronunciar sobre o mérito da questão.
O que está em jogo
A ordem executiva assinada por Trump autoriza o Serviço Postal dos Estados Unidos (USPS) a recusar a entrega de boletins de voto de estados que não enviarem listas de eleitores habilitados ao governo federal e que não adotarem um padrão único de envelopes para votação. Na prática, a medida cria uma camada extra de exigências burocráticas para os estados que utilizam amplamente o voto por correspondência.
Autoridades eleitorais locais argumentam que não há tempo hábil para adaptar seus sistemas às novas regras antes do pleito de novembro. O impacto pode ser significativo: cerca de um terço dos eleitores americanos costuma votar por correio, um método consolidado desde a pandemia de Covid-19, quando seu uso disparou.
Cerca de duas dezenas de estados governados por democratas já haviam processado a administração Trump para impedir a aplicação da ordem, alegando que a medida dificulta o acesso ao voto às vésperas de uma eleição decisiva para a composição do Congresso.
A contradição de Trump com o próprio voto
Um dos pontos mais comentados da disputa é a relação pessoal do presidente com o método que tenta restringir. Trump vota rotineiramente por correspondência na Flórida, onde mantém residência oficial desde que transferiu seu registro eleitoral de Nova York. Diferentemente de eleitores com solicitação permanente de voto por correio, ele precisa pedir a via para cada eleição individualmente — o que já fez novamente em um pleito estadual recente no Palm Beach County.
Publicamente, porém, o presidente tem chamado o voto por correio de “fraudulento” e classificado o sistema como corrupto, retomando uma narrativa que remonta à derrota nas eleições de 2020. Múltiplos tribunais americanos e até integrantes do próprio governo já concluíram, à época, que não houve fraude capaz de alterar o resultado daquele pleito.
A Casa Branca tentou diferenciar o discurso da prática, afirmando que a crítica do presidente é dirigida a estados que adotam voto por correio universal — enviado automaticamente a todos os eleitores — e não a casos individuais de pessoas que solicitam a modalidade por necessidade, como o próprio Trump.
Dados contradizem alegação de fraude em massa
Um levantamento da Brookings Institution, publicado em 2025, é frequentemente citado nesse debate. Segundo o estudo, casos comprovados de fraude no voto por correspondência são extremamente raros: cerca de quatro ocorrências a cada 10 milhões de votos enviados por essa via. O número reforça o argumento de especialistas eleitorais de que o método é seguro quando acompanhado dos controles já existentes.
Ainda assim, o presidente tem pressionado o Congresso a aprovar uma legislação mais ampla, batizada de SAVE Act, que restringiria o voto por correio a um grupo bem menor de eleitores — como pessoas com deficiência, militares em serviço ou eleitores viajando no dia da votação. A proposta, no entanto, enfrenta resistência significativa em um Senado dividido de forma apertada entre os dois partidos.
Próximos passos da batalha judicial
Com o novo recurso do governo, a decisão da juíza de Boston segue suspensa temporariamente enquanto o Tribunal de Recurso do 1º Circuito analisa o mérito da questão. Especialistas em direito eleitoral avaliam que, dada a relevância nacional do tema e o prazo apertado até novembro, é provável que o caso retorne à Suprema Corte antes das eleições — desta vez para uma decisão definitiva sobre a legalidade da ordem executiva.
Enquanto isso, estados que dependem fortemente do voto por correio permanecem em compasso de espera, sem saber se precisarão reformular seus processos eleitorais às pressas ou se poderão manter as regras atuais até o pleito de meio de mandato.
A disputa expõe, de forma direta, o embate entre a retórica presidencial contra o voto por correspondência e a realidade prática de um sistema eleitoral em que o próprio presidente é usuário frequente do método que busca restringir para os demais americanos.
As informações têm como base apuração publicada pelo portal: G1.
